{"id":1502,"date":"2016-12-15T12:05:49","date_gmt":"2016-12-15T15:05:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.behavior.com.br\/blog\/?p=1502"},"modified":"2016-12-19T22:03:43","modified_gmt":"2016-12-20T01:03:43","slug":"cinco-decadas-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.behavior.com.br\/blog\/pt\/cinco-decadas-de-vida\/","title":{"rendered":"Cinco d\u00e9cadas de vida."},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levei alguns dias para escrever este texto. Duvidei se devia ou n\u00e3o. Me ajudou a decidir lembrar que umas das promessas que fiz para mim mesma ao continuar a trilha dos meus estudos e meus textos \u00e9 de caminhar atrav\u00e9s dela a partir do cora\u00e7\u00e3o, conduzida pelo meu Sentir; o que torna tudo sens\u00edvel, delicado, nos deixando com uma sensa\u00e7\u00e3o clara de fragilidade. \u00c9 uma escolha que fiz porque sei que \u00e9 nessa fragilidade que est\u00e1 a nossa liberdade; ao fazer a entrega pelo Sentir, nos despimos de tantas m\u00e1scaras que o que sobra, somos s\u00f3 n\u00f3s; existe maior liberdade do que n\u00f3s despidos perante o mundo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei aos 50 anos. Meio s\u00e9culo. Consciente que caminhei at\u00e9 aqui mais tempo do caminho que ainda tenho a fazer. Escrevo isto sem nenhum tipo de afli\u00e7\u00e3o porque, sinceramente? penso que 101 anos \u00e9 muito tempo para ser vivido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que toda d\u00e9cada traz em n\u00f3s uma reflex\u00e3o sobre o que queremos para o futuro e uma inevit\u00e1vel retrospectiva do que vivemos at\u00e9 o momento. O zero no nosso tempo de vida traz uma certa urg\u00eancia por atingir os objetivos que ambicionamos. Prometemos para n\u00f3s mesmos ser mais focados e conscientes do tempo. Dependendo da pessoa, essa promessa se perde nas tarefas do dia a dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o lembro do meu anivers\u00e1rio de 20 anos mas sei que passei a d\u00e9cada me convertendo em algu\u00e9m al\u00e9m da sombra dos meus pais. No meu caso era importante ser diferente deles. Tem gente que anda pela vida pela similitude, eu ando pela diferen\u00e7a. Casei aos 21 na loucura e na inoc\u00eancia de quem ainda n\u00e3o sabe bem o que \u00e9 casar. Ganhei um marido amoroso e duas crian\u00e7as que hoje s\u00e3o dois homens espalhados pelo mundo. O casamento n\u00e3o durou quase nada mas me deu a liberdade que tanto ansiava. Lembro que eram tempos dif\u00edceis, temos poucas armas e muita energia. O caminho no meu caso longe do meu pa\u00eds, foi solit\u00e1rio e ao mesmo tempo feliz porque tinha poucos par\u00e2metros para me apoiar e me cercear.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cai na publicidade e n\u00e3o sei ao certo como; \u00f3bvio, foi a profiss\u00e3o que escolhi mas n\u00e3o posso dizer que foi uma escolha do cora\u00e7\u00e3o. Sempre tive sorte e a aproveitei devolvendo a ela dedica\u00e7\u00e3o e empenho. Consegui trabalhar nas principais ag\u00eancias da regi\u00e3o onde morava e conviv\u00ed com grandes profissionais com quem aprendi muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro dos meus 30 claramente e como celebrei me despedindo, mesmo sem tanta consci\u00eancia, de um modelo de vida que falava cada vez menos comigo. Foi um tempo que viajei buscando em diversas partes deste planeta peda\u00e7os de mim. A \u00fanica coisa clara que tinha dentro de mim era aquilo que n\u00e3o queria na minha vida. Tinha aberto minha empresa, a behavior, e junto com a equipe que me suportava amorosamente &#8211; \u00e9 essa exatamente a no\u00e7\u00e3o que tenho da \u00e9poca sobre minha lideran\u00e7a neur\u00f3tica e exigente &#8211; fizemos coisas lindas. A liberdade de express\u00e3o, formas e conte\u00fados iam tomando cada vez mais meu ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro de uma viagem que fiz e que pela primeira vez senti saudades de um amor que ainda n\u00e3o tinha vivido. Aos meus amores, paix\u00f5es e outros nem tanto, meu agradecimento, e para alguns minhas desculpas. Tamb\u00e9m no territ\u00f3rio do amor rom\u00e2ntico era guiada por aquilo que n\u00e3o queria. As minhas pesquisas sobre valores, atitudes e comportamentos foram me tornando bastante alerta \u00e0 externalidade de valores que nem sempre batiam doces no meu cora\u00e7\u00e3o; por outro lado, embora ainda n\u00e3o conhecesse toda sua potencialidade, havia dentro de mim a lembran\u00e7a de um grande amor futuro que me guiava; o grande amor da minha vida que estava por vir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro que foi uma d\u00e9cada em que as diferen\u00e7as com a minha m\u00e3e se tornaram mais conscientes, e quanto mais conscientes ficavam, mais dura a nossa rela\u00e7\u00e3o. Hoje sei que havia dentro de mim um saber que essa era uma rela\u00e7\u00e3o importante a ser trabalhada, porque apesar da dureza, foi um per\u00edodo bem pr\u00f3ximo dela. Viajamos muito, pegando estradas com destinos nem sempre certos e as lembran\u00e7as do seu rosto impregnado pela alegria de se aventurar, acalentam minha alma at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi nessa d\u00e9cada que meu irm\u00e3o voltou para morar perto de n\u00f3s. Iniciamos juntos uma tentativa bastante atritante de conv\u00edvio. Mas pelo amor que sempre nos uniu, ambos sab\u00edamos que dev\u00edamos continuar at\u00e9 as arestas desaparecerem. Foi tamb\u00e9m nesses tempos que me dediquei em corpo e alma \u00e0 busca espiritual e \u00e0 medita\u00e7\u00e3o, que aprendi a chamar de <em>interioriza\u00e7\u00e3o<\/em>. Foi a d\u00e9cada que me reconectei com meu pa\u00eds, com minha origem e meu passado ao fazer o <em>Inka Trail<\/em>, lembro de cortar as unhas inconvenientemente longas, sentada na cal\u00e7ada da Praza de Armas de Cusco para iniciar uma trilha que at\u00e9 hoje n\u00e3o acabou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro como foi f\u00e1cil e familiar para mim fazer o <em>trekking<\/em>, descansar em bolsa de dormir dentro de uma barraca sem nunca antes ter feito isso. Lembro que reconheci no vento forte e frio das montanhas a voz que at\u00e9 hoje me guia. Lembro que foi o in\u00edcio da volta a mim mesma e o que \u00e9 mais sagrado dentro de mim. Ap\u00f3s esse retorno, voltar para a mesma vida n\u00e3o fazia mais sentido. O vento, agora aliado, me empurrando para novos caminhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi quase no final dessa d\u00e9cada, que ele chegou. Chegou sem avisar e sem ser notado. Chegou sem nenhum brilho nos olhos, nem estrelas no c\u00e9u. Sem nenhum interesse tempor\u00e1rio. Simplesmente chegou e quando era para ser se mostrou em todo seu esplendor. Pela primeira vez, eu sabia que era ele que minha alma queria, que era dele que tinha tantas saudades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro dos meus 40 tentando ser mulher, cuidando do meu feminino ainda com os modelos das outras gera\u00e7\u00f5es que teimavam em me guiar. Lembro que foi a \u00e9poca que conscientemente exercitei amar e me entregar. Lembro que o que me guiava era o forte desejo de prote\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas seres que entraram na minha vida assustados e machucados. Lembro que errei muito at\u00e9 encontrar a minha pr\u00f3pria forma de entrega. Embora tivesse iniciado o processo de aprender a cuidar de algu\u00e9m com os filhos do meu primeiro marido, foi com o meu grande amor que aprendi a amar e cuidar os filhos dos outros. Para uma pessoa que se expressar, \u00e9 viver, foi aos poucos que aprendi a lidar com a afli\u00e7\u00e3o da responsabilidade de cuidar com certo distanciamento. Lembro que nessa d\u00e9cada nasceu minha primeira sobrinha. J\u00e1 com mais pr\u00e1tica consegui me aproximar e contribuir para que ela e sua irm\u00e3 tenham um futuro consciente, aberto de possibilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m foi nessa d\u00e9cada, logo no in\u00edcio, que a insatisfa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a surgir. Aquele vento que me desassossega at\u00e9 eu agir. Meu trabalho n\u00e3o me dava mais prazer, usar meu conhecimento e meus talentos para o consumo pelo consumo n\u00e3o estava me deixando feliz. Decidi canalizar o olhar sobre o consumidor para um aspecto mais amplo, o de ser humano; queria humanizar as empresas as quais atendia, queria promover relacionamentos mais amorosos. Lembro que convidei um grupo pequeno de clientes e amigos para apresentar o que iria fazer. Poucos entenderam at\u00e9 porque nem eu sabia ao certo o que iria fazer. Lembro que falei com um amigo que estava se tornando meu principal cliente e como seu rosto mostrava todo o esfor\u00e7o em entender do que estava falando. Lembro da mesma express\u00e3o, dias depois, no rosto de sua principal executiva. Lembro que na \u00e9poca n\u00e3o tive medo de perder o cliente, a minha energia estava toda destinada a dar forma aquilo que estava dentro de mim. Lembro que ele me chamou de corajosa. Foi a primeira vez que eu pensei que pudesse ser de fato uma, embora foi a empresa que mais me apoiou nas inova\u00e7\u00f5es que fui fazendo desde ent\u00e3o. N\u00e3o sei se era coragem que me guiava, mas tinha uma certeza: o que vinha fazendo n\u00e3o tinha mais sentido para mim. Hoje eu vejo que sempre tive muita confian\u00e7a na vida e isso me levou a me jogar aos vazios onde costuma viver a plenitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui no final dessa d\u00e9cada que meu amor resolveu mudar sua carreira. Ele se jogou ao vazio. Foram poucos anos dif\u00edceis, de muita inseguran\u00e7a, de algumas trilhas erradas mas de muitas pessoas maravilhosas que cruzaram nossos caminhos nos abrindo portas, abra\u00e7ando, acalentando, pessoas que levamos conosco at\u00e9 hoje. Interessante como ao longo da vida pessoas importantes, que amamos de verdade, partem para nunca mais voltar. Como outras entram nas nossas vidas para nunca mais sair. E, algumas retornam, muito tempo depois, para iniciar uma nova hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro muito bem, at\u00e9 porque \u00e9 uma hist\u00f3ria pr\u00f3xima, que foi na d\u00e9cada dos 40 que consegui meu maior desafio e por isso o que mais minha alma queria: fazer as passes com a minha m\u00e3e. Quando ela chegou na minha casa doente e compreendi que ela tinha chegado para ficar, entendi que era a hora de passar a limpo a rela\u00e7\u00e3o. Sair da rela\u00e7\u00e3o cordial que guarda muitas m\u00e1goas nas suas entranhas para uma rela\u00e7\u00e3o aberta, cheia de amor, compreens\u00e3o e perd\u00e3o. Foi, at\u00e9 hoje, a miss\u00e3o mais dif\u00edcil da minha vida, mas a que mais me traz alegria, a que mais me emociona, a que mais me traz paz e orgulho. Quando a minha m\u00e3e, a Mamita, a Gola, como meu irm\u00e3o amado e eu a cham\u00e1vamos, foi para o andar de cima, s\u00f3 havia amor entre n\u00f3s. Fazer as passes com nossas m\u00e3es em vida \u00e9 o mais pacificador de alma que existe na terra, podem acreditar. Para alegria dela, meu irm\u00e3o e eu vivemos desde ent\u00e3o uma rela\u00e7\u00e3o amorosa cada um cuidando do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro que ap\u00f3s a morte da mamita veio o vazio, o vazio da falta de prop\u00f3sito e sentido de vida. Foi quando compreendi que o que sempre me guiou foi perdoar e ser perdoada pela minha m\u00e3e. Feito isto, porqu\u00ea viver? Para qu\u00ea? Foram quase 2 anos e meio para me reconstruir. Teve momentos que pensei que n\u00e3o conseguiria, teve momentos que pensei ter conseguido mas o caminho se desintegrava na medida que caminhava por ele. O amor e paci\u00eancia dos meus amores pr\u00f3ximos me ajudaram a andar. Especialmente do meu companheiro e amado. Sua do\u00e7ura, for\u00e7a, trabalho e dedica\u00e7\u00e3o me suportaram estes tempos de inverno que me custava deixar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A poucos meses de fazer 50, da d\u00e9cada virar, ainda meu caminho era incerto. Desta vez o tempo tinha soprado insistentemente, a insatisfa\u00e7\u00e3o era latente mas n\u00e3o sabia nem tinha a forca para escolher novos caminhos. Foi um per\u00edodo que me recolhi. Precisava do pouco que sobrara de mim.\u00a0Sabia que tinha que mudar minha forma de operar com o mundo. Minha exist\u00eancia tinha mudado, assim, o meu trabalho, a minha entrega para o mundo tinha que mudar, tinha que acompanhar o novo em mim. O inverno tinha chegado e integradamente ao meu redor as coisas tamb\u00e9m iam mudando sem eu pedir: clientes antigos mudavam de rota, novos clientes se apresentavam em momentos chaves, mas nenhuma rela\u00e7\u00e3o forte e exigente demais veio at\u00e9 a mim.\u00a0Foi assim que a reflex\u00e3o atrav\u00e9s da escrita foi tomando corpo em mim e mesmo sem planejar, sem grandes inten\u00e7\u00f5es, de forma leve e amorosa, o novo foi surgindo em mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chego aos 50 leve. Sem maiores prop\u00f3sitos do que viver, entregando ao mundo o meu melhor. Compreendi que a palavra escrita \u00e9 minha melhor forma, mas n\u00e3o a \u00fanica; que a pesquisa, minha fonte, o que me inspira, tem sentido quando quem a contrata est\u00e1 em busca de compreender melhor o outro para se entender. Que gerar reflex\u00e3o \u00e9 minha forma de agradecer \u00e0 vida. Entendi que escrever publicamente \u00e9 me expressar para o mundo, entregar o meu ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dif\u00edcil dizer que estou feliz aos 50, como se o conceito de felicidade n\u00e3o cumprisse a miss\u00e3o de expressar meu estado de esp\u00edrito. S\u00f3 sei que sa\u00ed do inverno. Que a vida hoje est\u00e1 colorida e abundante de oportunidades. Iniciei a celebra\u00e7\u00e3o dos meus 50 rodeada de alguns poucos amigos que estiveram comigo nestes tempos invernais, n\u00e3o para excluir outros, mas para agradecer a paci\u00eancia e amor daqueles que estiveram ao meu lado, bem grudados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha d\u00e9cada de 50 se inicia agora e um novo livro de p\u00e1ginas em branco se abre a minha frente. N\u00e3o sei qual \u00e9 o caminho nem a forma que ele tomar\u00e1, s\u00f3 sei que sou ele leve, plena e em paz.<\/p>\n<p><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Levei alguns dias para escrever este texto. Duvidei se devia ou n\u00e3o. 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