Um dos sete Movimentos Humanos que identificamos crescendo entre as pessoas foi a Solidariedade, o movimento que une as pessoas através de elos emocionais e os situa numa mesma dimensão, a de ser humano. A solidariedade é bastante associada à caridade, a tolerância e a compaixão, por isso na época que lancei os Movimentos Humanos foi visto como de pouca novidade. Porém, o significado do Movimento Humano Solidariedade vai além. Compreendo que a caridade, tolerância e compaixão sejam manifestações do ato solidário e caminhos para chegar ao sentido mais profundo da solidariedade, que é a compreensão da interdependência, da união. Ser solidário é ser unido, ser “sólido” com o outro. Sermos Uno.

Como é difícil compreender e assimilar a nossa interdependência como humanos e como sistema planetário, vamos indo pelas bordas, assim, caminhamos para o Uno nos solidarizando com os mais necessitados e oferecemos caridade. Decidimos ser tolerantes com os diferentes, num ato, muitas vezes, de generosidade a partir da nossa suposição de superioridade. Nos mobilizamos pela compaixão ao perceber a dor do outro. Todas formas de nos conectar com o outro, tomando consciência da sua existência, conhecendo melhor o que era desconhecido, ampliando nossa compreensão de todas as nuances que temos como seres humanos. Compreendendo que afinal, nessas múltiplas diferenças está a nossa totalidade. Não é a toa que agora ao invés de luta pelas mulheres já se levanta a bandeira de “ser humano”. Um belo exemplo de como precisamos ir passo a passo para chegarmos à Solidariedade de fato: primeiro falávamos da igualdade do que era diferente. Depois ampliamos o conceito para equidade – não somos iguais, somos diferentes com direitos iguais – agora continuamos a luta pela equidade de gênero – fundamental! – mas já estamos compreendendo que isso o fazemos por sermos todos seres humanos, cada um diferente do outro, mas iguais e necessários como espécie. De aqui algum tempo, os malucos beleza deixarão de ser tão malucos e compreenderemos que além da interdependência de espécie, também estamos interligados com todo o sistema planetário. Que o que fazemos aqui, no nosso microcosmo, interfere consistentemente no todo. Que somos Uno.

Estas últimas semanas minha família tem sentido e vivido a compaixão das pessoas pelo caso da Maria Luisa. Como escrevi no meu post da semana passada A leviandade que destrói futuros, o ato de cada um de nós interfere diretamente com a vida que está em volta. Muitas pessoas tem se manifestado, escrevendo, orando em casa, nas igrejas, ou indo até o hospital para orar junto com a família. Os colegas de faculdade da Maria Luisa em Cascavel tem se manifestado constantemente para ajudar e colaborar com a família. Me contaram que na hora da tomada de presença na sala, quando o professor fala o nome da Maria Luisa, num acordo tácito, todos ao mesmo tempo respondem, presente! Pequenos gestos que dão alento e fortalece todos os envolvidos. A Maria Luisa está reagindo, lutando bravamente pela vida, como a mãe disse numa entrevista (veja a história no link abaixo). A compaixão une as pessoas pelo sentimento da dor que somos capazes de imaginar no outro. É a dor que nos colocamos no estado de fragilidade que une e integra. Que evita a separação. Que nos torna solidários. Que nos torna Uno. Poderíamos viver num estado de solidariedade sem passar pela dor? Poderíamos. Mas já que ela aparece quando menos a esperamos, que valha a pena e nos ajude a compreender quem, afinal, somos e quão grande é a nossa interdependência.

Caso Maria Luisa Kamei