Ontem uma amiga sabendo que eu adoro banda (fanfarra) me ligou entusiasmada para irmos num evento no Círculo Militar, onde ela é sócia. A atração principal era a banda filarmônica do exército – por isso a empolgação dela em me convidar. Infelizmente eu não pude ir. Mas hoje cedo ela me ligou para contar como foi. Falou sobre as esposas dos oficiais que estavam todas arrumadas com seus cabelos armados com laquê. Contou das formalidades que só as forças armadas conseguem ainda manter e terminou falando das músicas que a banda tocou.

O que esta história tem a ver com o tema da semana? Acontece que passei o dia pensado nisso. Não existe lugar melhor para ilustrar como as hierarquias de poder acontecem do que no exército, marinha ou aeronáutica. Se você é um oficial e almeja ser um dia um general, um almirante ou um marechal, o melhor caminho é se espelhar nos seus comandantes e agir como tal. É um modelo, não é? Pois comecei a ver que não é tão diferente do que normalmente acontece conosco. A maioria de nós, pelo menos em algum momento das suas vidas, quer ser igual a alguém. Seja para fazer parte de um grupo, seja para pertencer, seja, principalmente, para competir – evidenciando o “sou mais, tenho mais, posso mais”. É aí que a coisa toda se complica. Quanto mais olhamos para o outro e, competimos com ele, menos sobra espaço para olhar para nós mesmos. 

Me lembro que quando eu era bem mais jovem – e portanto bem menos tolerante – eu detestava que me perguntassem onde eu comprei a roupa que eu estava vestindo. É uma bobagem, mas aquilo me remetia a um olhar no outro. Eu não entendia como elogio.  Eu ouvia algo como “eu quero ter um igual ao seu”. 

Mas antes de chegar nesta fase, passei por outra que considero bem pior. Entrei na faculdade com 17 anos. Por uma daquelas coisas do destino, a minha turma quase não tinha pessoas da minha idade. A maioria já eram homens e mulheres estruturados, que trabalhavam e pagavam suas contas – inclusive a mensalidade da Universidade. Eu me sentia um peixe fora d’água. No auge da adolescência, com minhas roupas de surfista que era a moda na época, sentia que nada combinava ali. Não demorou muito para eu mirar na mulher que achava mais elegante, bonita e culta da sala e comecei a tentar imitar seu estilo. No início fiz isso, usando as roupas da minha mãe. Não funcionou muito bem, como vocês podem imaginar. Fui ficando tão focada nesta ideia, que chegou uma hora, eu simplesmente comecei a imitar a letra da moça. E que letrinha difícil era aquela (estamos falando de uma época em que escrevíamos muito mais a mão). A minha sorte é que apesar da relativa loucura que se apossou de mim naquele momento, eu sempre tive bom-senso e uma certa lucidez. Aos poucos fui entendendo que aquilo era ridículo e fui buscando o meu próprio estilo. Não por acaso, logo estava trabalhando na editoria de moda de um jornal local e fui estudar moda para poder escrever sobre o assunto. Isso me ajudou a formar um estilo próprio e fez com que eu passasse a olhar para mim e não para o outro. 

O que me levou ao outro ponto – aquele em que era comum as pessoas me perguntarem onde eu comprei roupas e acessórios. Isso tudo pode parecer meio fútil para um tema tão importante como o que estamos abordando. Mas ajuda a esclarecer. O que eu quero dizer é que quanto mais para fora o nosso olhar, está menos você vai se enxergar: sua essência, sua verdade, sua confiança. 

A boa notícia é que as últimas atualizações dos projetos da Behavior que dão sustentação ao Movimentos Humano mostra que estamos começando a se importar menos com o outro e focando mais em nós mesmos. No futuro isso vai nos levar para um outro patamar. Aliás….já começa a nos levar. Amanhã vamos falar de exemplos de pessoas e situações que já se mostram mais voltadas para si mesmas e menos para o outro.